"A maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a dor do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana.
A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo,
o que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro.
O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e ferir-se,
o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes de emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre."
(Vinicius de Moraes)
05/10/2009
21/09/2009
Deixei de ouvir-te
"Deixei de ouvir-te. E sei que sou
mais triste com o teu silêncio.
Preferia pensar que só adormeceste; mas
se encostar ao teu pulso o meu ouvido
não escutarei senão a minha dor.
Deus precisou de ti, bem sei.
E não vejo como censurá-lo
ou perdoar-lhe."
(Maria do Rosário Pedreira)
mais triste com o teu silêncio.
Preferia pensar que só adormeceste; mas
se encostar ao teu pulso o meu ouvido
não escutarei senão a minha dor.
Deus precisou de ti, bem sei.
E não vejo como censurá-lo
ou perdoar-lhe."
(Maria do Rosário Pedreira)
15/09/2009

(Foto: Toby Vandenack - April Showers)
Sete Canções de Declínio (Mario de Sá Carneiro)
1
Um vago tom de opala debelou
Prolixos funerais de luto de Astro
E pelo espaço, a Oiro se enfolou
O estandarte real livre, sem mastro.
Fantástica bandeira sem suporte,
Incerta, nevoenta, recamada
A desdobrar-se como a minha Sorte
Predita por ciganos numa estrada ...
2
Atapetemos a vida
Contra nós e contra o mundo.
— Desçamos panos de fundo
A cada hora vivida!
Desfiles, danças embora
Mal sejam uma ilusão...
Cenário de mutação
Pela minha vida fora!
Quero ser Eu plenamente:
Eu, o possesso do Pasmo.
Todo o meu entusiasmo,
Ah! que seja o meu Oriente!
O grande doido, o varrido,
O perdulário do Instante
O amante sem amante,
Ora amado, ora traído ...
Lançar os barcos ao Mar
De névoa, em rumo de incerto...
Pra mim o longe é mais perto
Do que o presente lugar.
...E as minhas unhas polidas
Idéia de olhos pintados...
Meus sentidos maquilados
A tintas conhecidas ...
Mistério duma incerteza
Que nunca se há de fixar...
Sonhador em frente ao mar
Duma olvidada riqueza ...
Num programa de teatro
Suceda-se a minha vida
Escada de Oiro descida
Aos pinotes, quatro a quatro! ...
3
Embora num funeral
Desfraldemos as bandeiras
Só as cores são verdadeiras
Siga sempre o festival!
Quermesse — eia! — e ruído!
Louça quebrada! Tropel!
(Defronte do carrossel,
Eu, em ternura esquecido... )
Fitas de cor, vozearia —
Os automóveis repletos:
Seus chauffeurs — os meus afetos
Com librés de fantasia!
Ser bom... Gostaria tanto
De o ser... Mas como? Afinal
Só se me fizesse mal
Eu fruiria esse encanto.
— Afetos?... Divagações...
Amigo dos meus amigos...
Amizades são castigos,
Não me embaraço em prisões!
Fiz deles os meus criados,
Com muita pena decerto.
Mas quero o Salão aberto,
E os meus braços repousados.
4
As grandes Horas! — vive-las
A preço mesmo dum crime!
Só a beleza redime —
Sacrifícios são novelas.
"Ganhar o pão do seu dia
Com o suor do seu rosto..."
— Mas não há maior desgosto
Nem há maior vilania!
E quem for Grande não venha
Dizer-me que passa fome.
Nada há que se não dome
Quando a Estrela for tamanha!
Nem receios nem temores,
Mesmo que sofra por nós
Quem nos faz bem. Esses dós
Impeçam os inferiores.
Os Grandes, partam — dominem
Sua sorte em suas mãos:
— Toldados, inúteis, vãos,
Que o seu Destino imaginem!
Nada nos pode deter;
O nosso caminho é de Astro!
Luto — embora! — o nosso rastro,
Se pra nós Oiro há de ser! ...
5
Vaga lenda facetada
A imprevisto e miragens —
Um grande livro de imagens,
Uma toalha bordada ...
Um baile russo a mil cores.
Um Domingo de Paris —
Cofre de Imperatriz
Roubado por malfeitores.
Antiga quinta deserta
Em que os donos faleceram —
Porta de cristal aberta
Sobre sonhos que esqueceram ...
Um lago à luz do luar
Com um barquinho de corda...
Saudade que não recorda —
Bola de tênis no ar...
Um leque que se rasgou —
Anel perdido no parque —
Lenço que acenou no embarque
De Aquela que não voltou ...
Praia de banhos do sul
Com meninos a brincar
Descalços à beira-mar,
Em tardes de céu azul...
Viagem circulatória
Num expresso de vagões-leitos —
Balão aceso — defeitos
De instalação provisória ...
Palace cosmopolita
De rastaquoères e cocottes —
Audaciosos decotes
Duma francesa bonita ...
Confusão de music-hall,
Aplausos e brou-u-ha —
Interminável sofá
Dum estofo profundo e mole. . .
Pinturas a "ripolin",
Anúncios pelos telhados —
O barulho dos teclados
Das Lynotype do Matin...
Manchete de sensação
Transmitida a todo o mundo —
Famoso artigo de fundo
Que acende uma revolução ...
Um sobrescrito lacrado
Que transviou no correio,
E nos chega sujo — cheio
De carimbos, lado a lado. . .
Nobre ponte citadina
De intranqüila capital —
A umidade outonal
De uma manhã de neblina ...
Uma bebida gelada —
Presentes todos os dias. . .
Champanha em taças esguias
Ou água ao sol entornada ...
Uma gaveta secreta
Com segredos de adultérios...
Porta falsa de mistérios —
Toda uma estante repleta:
Seja enfim a minha vida
Tarada de ócios e Lua:
Vida de Café e rua,
Dolorosa, suspendida —
Ah! mas de enlevo tão grande
Que outra nem sonho ou prevejo...
— A eterna mágoa dum beijo,
Essa mesma, ela me expande ...
6
Um frenesi hialino arrepiou
Pra sempre a minha carne e a minha vida.
Fui um barco de vela que parou
Em súbita baía adormecida ...
Baía embandeirada de miragem,
Dormente de ópio, de cristal e anil,
Na idéia de um país de gaze e Abril,
Em duvidosa e tremulante imagem ...
Parou ali a barca — e, ou fosse encanto,
Ou preguiça, ou delírio, ou esquecimento,
Não mais aparelhou... — ou fosse o vento
Propício que faltasse: ágil e santo ...
...Frente ao porto esboçara-se a cidade,
Descendo enlanguescida e preciosa:
As cúpulas de sombra cor-de-rosa,
As torres de platina e de saudade.
Avenidas de seda deslizando,
Praças de honra libertas sobre o mar
Jardins onde as flores fossem luar;
Lagos — carícias de âmbar flutuando ...
Os palácios de renda e escumalha.
De filigrana e cinza as catedrais —
Sobre a cidade a luz — esquiva poalha
Tingindo-se através longos vitrais ...
Vitrais de sonho a debruá-la em volta,
A isolá-la em lenda marchetada:
Uma Veneza de capricho — solta,
Instável, dúbia, pressentida, alada...
Exílio branco — a sua atmosfera,
Murmúrio de aplausos — seu brou-u-ha...
E na praça mais larga, em frágil cera,
Eu — a estátua "que nunca tombará"...
7
Meu alvoroço de oiro e lua
Tinha por fim que transbordar...
— Caiu-me a Alma ao meio da rua,
E não a Posso ir apanhar!
07/09/2009
Amanhecer

A mulher acorda em um quarto acolhedor em meio a muitas vidas que passaram e estão ainda guardadas dentro de sacolas e malas, desejando ser contadas.
Um som tímido, que sai de um violão desafinado se antecipa e canta todos esses desejos, ou parece tentar, delicadamente se afinar.
Os olhos, como que vendo o oculto. Os olhos sobressaindo por todo o silêncio da voz, buscam entendimento e cobram de forma adequadamente sutil a sintonia de ontem.
O telefone toca, invade o momento e desfalece os sonhos... E se faz ouvir gritando o silêncio estampado no instrumento que tentava falar.
De volta ao presente, o momento solicita que palavras sejam ditas. E atendendo à solicitação, a mulher soa sem ritmo os pensamentos que a absorvem, aliviando e encantando o espírito do homem que busca conhece-la.
Um som tímido, que sai de um violão desafinado se antecipa e canta todos esses desejos, ou parece tentar, delicadamente se afinar.
Os olhos, como que vendo o oculto. Os olhos sobressaindo por todo o silêncio da voz, buscam entendimento e cobram de forma adequadamente sutil a sintonia de ontem.
O telefone toca, invade o momento e desfalece os sonhos... E se faz ouvir gritando o silêncio estampado no instrumento que tentava falar.
De volta ao presente, o momento solicita que palavras sejam ditas. E atendendo à solicitação, a mulher soa sem ritmo os pensamentos que a absorvem, aliviando e encantando o espírito do homem que busca conhece-la.
Escrito por Renata Marques.
Pintura: Matisse
05/09/2009
O Poema que se Perdeu...

Notou que no momento em que conseguiu relaxar,
no instante em que quase adormecera,
entre sons, letras e luzes,
um poema que se perdeu.
De dialeto muito puro,
e de mesclados tons.
Era quase a exata nuance faltante,
quando os pés físicos, cansados,
buscam repouso nas asas da alma.
Intervalo para reabrir caminhos,
rearranjar conceitos,reencontrar
o sentimento mais próximo à magia,
o amor, o poema...que se perdeu...
Escrito por Renata Marques
Cenas de São Paulo
Cenário - Ponto de ônibus da Av. Paulista com a R. Brigadeiro Luiz Antonio.
Um rapaz de aproximadamente 27 anos anda vagarosamente entre transeuntes que esperam seus ônibus. Caminha sorrindo e para ao lado de uma bela mulher que pelo excesso na maquiagem, deve ter por volta de seus 46 anos. A mulher finge não perceber, e o rapaz, sorrindo, junta suas duas mãos em palmas que irrompem em uma barulho ensurdecedor no ouvido da mulher. Esta, dá um pulo involuntário em reação de susto e se afasta do rapaz. Ele, por sua vez, continua seu passeio vagaroso por entre os passageiros. Para ao lado de um senhor e repete o ritual. O senhor, bem humorado, não contém um largo sorriso e não se mexe um milímetro de onde está. O rapaz continua, sorrindo, seu lento caminhar. Repete o ritual com mais duas mulheres, um rapaz e um homem.
Já são trinta e seis minutos à espera do meu ônibus. O rapaz, saca um pacote de bolachas club social do bolso e o abre intensificando o riso. Para então, ao lado de uma rapariga vestida elegantemente e oferece a bolacha a ela. A rapariga vira o rosto e o ignora. Oferece para mais três pessoas e uma senhora que vende guloseimas, e, ao olhar o rapaz comendo bolachas, fica com vonade e abre uma de suas mercadorias. Pela primeira vez em cinquenta e um minutos, o rapaz teve gestos rápidos e disse: "Não, não, não abre não, toma aqui!" Também pela primeira vez, ouço sua voz. A senhora diz: "Ai meu Deus!" e vira o rosto. O rapaz olha para mim, sentada bem ao lado da senhora e me oferece uma bolacha. Aceito, agradecendo com um sorriso. Ele demonstra satisfação e quer que eu pegue mais uma. Leio os letreiros de meu ônibus - COHAB EDUCANDÁRIO. Agradeço novamente e me dispeço, desejando-lhe bom apetite.
Sigo com a lembrança desse rapaz, que me acampanhou por todo o dia. Poderia tentar fazer várias interpretações para aquelas atitudes. Pensei em algumas possibilidades, mas nenhuma seria assertiva por não conhecer nada de sua história. Se de alguma forma, ele buscou preenchimento de contato (o que pode ter relação com minha busca, e por isso reafirmo que a interpretação é errônea), mas enfim, acreditando por um momento que ele buscou ser preenchido, segui satisfeita por te-lo feito ao aceitar a sua bolacha, ao olhar para ele e validar aquela atitude. E, de alguma forma, me preencher também.
Escrito por Renata Marques
Um rapaz de aproximadamente 27 anos anda vagarosamente entre transeuntes que esperam seus ônibus. Caminha sorrindo e para ao lado de uma bela mulher que pelo excesso na maquiagem, deve ter por volta de seus 46 anos. A mulher finge não perceber, e o rapaz, sorrindo, junta suas duas mãos em palmas que irrompem em uma barulho ensurdecedor no ouvido da mulher. Esta, dá um pulo involuntário em reação de susto e se afasta do rapaz. Ele, por sua vez, continua seu passeio vagaroso por entre os passageiros. Para ao lado de um senhor e repete o ritual. O senhor, bem humorado, não contém um largo sorriso e não se mexe um milímetro de onde está. O rapaz continua, sorrindo, seu lento caminhar. Repete o ritual com mais duas mulheres, um rapaz e um homem.
Já são trinta e seis minutos à espera do meu ônibus. O rapaz, saca um pacote de bolachas club social do bolso e o abre intensificando o riso. Para então, ao lado de uma rapariga vestida elegantemente e oferece a bolacha a ela. A rapariga vira o rosto e o ignora. Oferece para mais três pessoas e uma senhora que vende guloseimas, e, ao olhar o rapaz comendo bolachas, fica com vonade e abre uma de suas mercadorias. Pela primeira vez em cinquenta e um minutos, o rapaz teve gestos rápidos e disse: "Não, não, não abre não, toma aqui!" Também pela primeira vez, ouço sua voz. A senhora diz: "Ai meu Deus!" e vira o rosto. O rapaz olha para mim, sentada bem ao lado da senhora e me oferece uma bolacha. Aceito, agradecendo com um sorriso. Ele demonstra satisfação e quer que eu pegue mais uma. Leio os letreiros de meu ônibus - COHAB EDUCANDÁRIO. Agradeço novamente e me dispeço, desejando-lhe bom apetite.
Sigo com a lembrança desse rapaz, que me acampanhou por todo o dia. Poderia tentar fazer várias interpretações para aquelas atitudes. Pensei em algumas possibilidades, mas nenhuma seria assertiva por não conhecer nada de sua história. Se de alguma forma, ele buscou preenchimento de contato (o que pode ter relação com minha busca, e por isso reafirmo que a interpretação é errônea), mas enfim, acreditando por um momento que ele buscou ser preenchido, segui satisfeita por te-lo feito ao aceitar a sua bolacha, ao olhar para ele e validar aquela atitude. E, de alguma forma, me preencher também.
Escrito por Renata Marques
05/07/2009
La Costa del Silencio - Mago de Oz
O mar cuspia um lamento
Tão tênue que ninguém ouvia-o
Era uma dor tão profunda
Que toda a costa morreu
Chora lamentos a nuvem que adoeceu
E a dor escreve espantos na areia
Canta para dormir o medo a um golfinho que bebeu
De uma água negra, sua sorte se foi
Venha, quero ouvir sua voz
E, se ainda nos restar o amor,
Impeçamos que ele morra.
Venha, pois em seu interior
Está a solução
De salvar a beleza que ainda há
Aonde se acomoda a usura
Nascem a ambição e o poder
E isso germina na terra
Que agoniza pelo interesse
E uma gaivota, contam, que decidiu
Num ato suicida sacrificar-se no sol
Ri desprezos um barco que encalhou
E sangra em sua cama: o mar!
Façamos uma revolução
Que nosso líder seja o sol
E nosso exército
Sejam mariposas
Como bandeira, um novo amanhecer
E, como conquista, compreender
Que temos que trocar
As espadas por rosas
Enquanto lhe restar fôlego
Olhe para procurar com o vento
Ajuda, pois apenas fica o tempo..
(Mago de Oz)
Tão tênue que ninguém ouvia-o
Era uma dor tão profunda
Que toda a costa morreu
Chora lamentos a nuvem que adoeceu
E a dor escreve espantos na areia
Canta para dormir o medo a um golfinho que bebeu
De uma água negra, sua sorte se foi
Venha, quero ouvir sua voz
E, se ainda nos restar o amor,
Impeçamos que ele morra.
Venha, pois em seu interior
Está a solução
De salvar a beleza que ainda há
Aonde se acomoda a usura
Nascem a ambição e o poder
E isso germina na terra
Que agoniza pelo interesse
E uma gaivota, contam, que decidiu
Num ato suicida sacrificar-se no sol
Ri desprezos um barco que encalhou
E sangra em sua cama: o mar!
Façamos uma revolução
Que nosso líder seja o sol
E nosso exército
Sejam mariposas
Como bandeira, um novo amanhecer
E, como conquista, compreender
Que temos que trocar
As espadas por rosas
Enquanto lhe restar fôlego
Olhe para procurar com o vento
Ajuda, pois apenas fica o tempo..
(Mago de Oz)
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